Parque Farroupilha - A Redenção

O parque na Imprensa

TIROTEIO NA REDENÇÃO - Como briga foi armada

Matéria e foto publicados na Zero Hora de 02 de março de 2010, Página 26 e 27.

zh-100302-01.jpg Confronto ocorrido em parque da Capital no domingo à tarde matou um garoto de 15 anos e levou pânico a frequentadoresRelatos de 30 adolescentes envolvidos no tiroteio de domingo no Parque Farroupilha (Redenção), em Porto Alegre, levaram a Brigada Militar a acreditar que o confronto foi alimentado por ameaças feitas pela internet e por mensagens de celular. A briga de bondes transformou em praça de guerra uma área de lazer que é símbolo da Capital, causando pavor entre os frequentadores.
Ontem, um dos cinco baleados – Gabriel Medina Marques, 15 anos – morreu no Hospital de Pronto Socorro. Foi no hospital que o 9° Batalhão de Polícia Militar colheu relatos dos adolescentes. Segundo o comandante, o tenente-coronel Alfeu Freitas, o conflito foi entre grupos rivais da Vila Jardim e do Campo da Tuca.
A BM apurou que no grupo maior, da Vila Jardim, a maior parte dos jovens estava na Redenção apenas para passear. Esse grupo tinha cerca de 40 integrantes, dos quais em torno de cinco vinham trocando ameaças com uma gangue do Campo da Tuca.
– No meio desse grupo maior, que não sabia de nada, havia alguns que estavam ali com intenção de conflito. A informação que temos é que o pessoal do Campo da Tuca anunciou pela internet que os rivais não deviam ir à Redenção, porque não iam permitir. Que gangues são essas ainda é preciso investigar – disse o tenente-coronel.
Conforme o comandante do 9ºBPM, os tiros foram desferidos por integrantes do grupo do Campo da Tuca, que eram cinco ou seis e teriam chegado separadamente ao parque. Segundo Freitas, não foi mais possível localizar as mensagens trocadas na internet.
– Eles deletaram. O problema é que, segundo nossas informações, já surgiram mensagens da gangue da Vila Jardim falando em vingança – disse.
A origem da briga seria o roubo de um boné, segundo um morador da Capital que conhece um integrante de uma das gangues. Ele contou a Zero Hora que na semana passada, também na Redenção, os dois grupos se encontraram. Um adolescente da Vila Jardim teria tido o boné apanhado por um jovem do Campo da Tuca. Segundo o homem ouvido por ZH, as duas gangues costumavam frequentar o Parque Germânia, mas, por causa da presença de seguranças, trocaram a área de lazer da Zona Norte pela Redenção recentemente.
Dois suspeitos já foram identificados
A Polícia Civil tem o nome de dois suspeitos de serem os autores dos disparos que mataram Gabriel e deixaram quatro jovens feridos (dois de 17 anos e um de 16). Os criminosos seriam dois adolescentes, ambos de 17 anos e moradores dos arredores do Campo da Tuca.
O caso está sendo conduzido pela 1ª Delegacia para o Adolescente Infrator (Dpai). O delegado Sérgio Domingues, que responde interinamente pela delegacia, quer ouvir parte das 54 pessoas levadas no domingo à DPPA, quase todas adolescentes suspeitos de integrarem bondes da Vila Jardim. Pelo menos três testemunhas também foram arroladas pela polícia.
itamar.melo@zerohora.com.br
ITAMAR MELO
zh-100302-02.jpg O que aconteceu
- Milhares de pessoas aproveitavam o dia de folga na Redenção, no domingo à tarde, quando membros de gangues rivais teriam se enfrentado a tiros no parque. Pelo menos cinco pessoas foram baleadas. Um adolescente foi atingido na cabeça e morreu ontem.
- De acordo com a polícia, um dos bondes envolvidos no tiroteio da tarde de domingo no Parque da Redenção seria do Campo da Tuca.
- Embora tenha informações sobre os atiradores, a Brigada Militar ainda não sabe de qual das gangues da vila eles fazem parte.
- O outro bonde envolvido no confronto seria de adolescentes do bairro Vila Jardim e, de acordo com a BM, teria sido identificado como A Firma.

Pessoas choravam e se jogavam ao chão

A transformação de momentos de lazer e convívio com amigos em uma experiência aterrorizante abalou quem estava no Parque Farroupilha na tarde de domingo. Frequentadores relatam instantes de pânico.
A estudante de Ensino Médio Ohara Reis, 17 anos, que ia à Redenção em todos os fins de semana para encontrar parentes e amigos, é taxativa:
– Não pretendo voltar à Redenção nunca mais, nem que me paguem.
Ohara estava a poucos metros do local onde ocorreram os disparos. Tomava chimarrão com duas amigas perto do chafariz, por volta das 16h30min, quando foi sobressaltada pela chegada de um grupo de aproximadamente 50 adolescentes que batia palmas e cantava. Uma de suas amigas, Camila Braga, 20 anos, conta que os integrantes estavam bem vestidos e usavam bonés e tênis com aparência de novos.
– Eles cantavam “é hoje, é hoje”. Andavam organizados, em cinco fileiras, como se fosse em um desfile militar – conta Camila.
Redenção estava lotada, com famílias e crianças
Depois da chegada espalhafatosa, o grupo se instalou junto ao chafariz do parque e não fez mais alarde. As amigas se tranquilizaram. Elas não viram nenhum outro grupo se aproximar. Meia hora depois, escutaram cinco tiros. O pânico se instalou. Ohara lembra dos gritos de “corre, corre” e “deita no chão”. Ela saiu em disparada, pensando que se tratava de um arrastão.
– A única coisa que consegui fazer foi correr. Fui para trás de uma árvore. Quase desmaiei. Fiquei em pânico e não conseguia achar a saída do parque. Eu estava desesperada.
Camila conta que na hora da fuga olhou para trás e notou que os integrantes do grupo de adolescentes também se dispersavam, misturando-se aos demais frequentadores do parque. A Redenção estava lotada naquele momento, com muitas famílias e crianças. Dezenas de pessoas jogavam-se ao chão, outras corriam.
– Era muita gente desesperada, crianças chorando, mãe correndo com carrinho de bebê – conta Camila, que não pretende retornar mais ao parque.
No pandemônio que se seguiu, Ohara se perdeu das amigas. Foi encontrá-las só mais tarde, junto à Avenida José Bonifácio. Levou-as para a casa da avó, nas proximidades.
– Deitei no sofá e chorei – relata.
Uma nutricionista de 23 anos que pediu para ter o nome preservado também estava perto do chafariz. A jovem conta que, no primeiro momento, ela e as amigas acreditaram que os tiros eram foguetes disparados durante o jogo do Grêmio.
– Gurias, é tiro! – ela gritou.
As jovens se deitaram na grama. Esperaram os tiros silenciar e então fugiram com a multidão.
– A gente só queria sair dali.
A nutricionista conta que ficou apavorada, mas que não pretende deixar de ir ao parque.
– Se pensar assim, não saio mais de casa.

Guarda Municipal será reforçada em junho

Embora não seja uma solução capaz de deter a ação de gangues, a Guarda Municipal deverá aumentar seu efetivo em 50% em junho. Cem novos agentes serão selecionados para entrar em ação provavelmente em junho, somando-se aos cerca de 200 guardas em atividade. Esses guardas são responsáveis por preservar o patrimônio municipal, mas também têm se somado aos policiais militares na tarefa de prender criminosos quando há flagrante em locais como a Redenção.
A Brigada Militar não tem planos de aumentar o policiamento em lugares como a Redenção e o Parcão – espaços que, como o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, estão na jurisdição do 9º BPM. O comandante do batalhão, tenente-coronel Alfeu Freitas Moreira, informa que o policiamento ostensivo desses locais envolve agentes uniformizados e à paisana. Moreira diz que as inúmeras gangues de Porto Alegre procuram atuar em áreas com mais concentração de pessoas pela facilidade para fugir.
O comandante do 9º BPM recomenda que a população não deixe de circular pelos parques:
– Pedimos que as pessoas observem movimentos suspeitos. Normalmente, os membros das gangues andam com o mesmo chapéu, a mesma camisa ou o mesmo tênis. Quem notar algo assim deve informar ao 190.




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