Uma canção para Porto Alegre
Mesmo sem formação de músico profissional, Jaime Lubianca pôde ouvir suas composições nas vozes de ídolos como Silvio Caldas, Elis Regina e Lupicínio Rodrigues.

Matéria e fotos publicadas no Jornal Já Bom Fim/Moinhos, edição Nº 391, da 2ª quinzena de setembro de 2008, Página 6, Coluna "Nosso Personagem".

ja-080902-1.jpg Elmar Bones
Jaime Lubianca não esquece aquele dia. Era inverno, escuro ainda, quando o som do telefone o fez saltar da cama. Um primo, companheiro de boemia, gritava do outro lado. "O Silvio Caldas vai gravar tua música, vai gravar.,.".
Silvio Caldas era uma celebridade, o Roberto Carlos da década de 1940. Lubianca se irritou. "Estás de porre! Ligando a uma hora dessas com bobagem!". Mas não era um trote.
Silvio Caldas estava mesmo em Porto Alegre e, numa roda de boêmios no Bar João, no Bom Fim, ouvira a musica "Porto dos Casais" que Lubianca havia composto para cantar nas serenatas com os companheiros. "Um amigo nosso, o Pato, cantou para ele, e ele se apaixonou".
O grande cantor queria encontrar Lubianca ainda naquela manhã, pois tinha um show a noite em comemoração ao aniversário da Radio Gaúcha, e pensava em cantar aquela musica - "A melhor que já ouvi sobre Porto Alegre", como definiu na época.
Lubianca foi encontrá-lo às dez horas no City Hotel. "Ele já estava numa rodinha, bebendo uísque". Naquela mesma tarde, fizeram um ensaio e a noite Lubianca quase não acreditou quando ouviu seus versos na voz do maior cantor brasileiro de então, perante o auditório lotado.
Isso aconteceu em 1942. Jaime Lubianca tinha 20 anos. Hoje aos 86 anos (vai completar em novembro) ele lembra que só teve emoção semelhante trinta anos depois, quando outra celebridade da MPB, Elis Regina, voltou a gravar "Porto dos Casais".
"Nos éramos um grupo de jovens festeiros, formamos um conjunto para fazer serenatas e tocar nos aniversários das meninas. Eu não tinha formação musical, minha iniciação tinha sido numa galena, ouvindo a Radio Nacional do Rio de Janeiro".

"É sempre bom lembrar coisas passadas,
Rever os lampiões, os ancestrais
Singrando o Guaíba apareceram
Os velhos fundadores coloniais...

Chegaram tão alegres, alegres por demais,
Fundaram este Porto dos Casais...
É porto, Porto Alegre, antigo dos casais
Dos tempos que não voltam nunca mais".


Uma letra sem musica

ja-080902-3.jpg Durante a semana, as noitadas da turma de Lubianca eram na Cidade Baixa, no Alto da Bronze e nos bares do Bom Fim. Nos fins semana, seguiam para Belém Velho, nas casas de veraneio à beira do Guaíba. "Na sexta-feira a gente pegava o Ventarola e ia pra lá. Meu pai alugava uma casinha e a gente reunia os amigos"
O ventarola era um daqueles bondes sem portas laterais, que tinha apenas uma lona para proteger os passageiros nos dias de chuva. Quando ele corria, as lonas abanavam. Daí o apelido ventarola. Um dos amigos era Alberto Canto que tinha um piano em casa e duas irmãs muito bonitas. "Um dia combinamos fazer uma música para Porto Alegre eu faria a letra, ele a música. A minha parte fiz logo, mas a dele não saiu".

Areia para secar o banhado da Redenção

O pai de Jaime Lubianca, o dr. José Faibes Lubianca, foi um médico famoso, conhecido por três gerações de porto-alegrenses. Tinha consultório no Bom Fim, na rua Felipe Camarão. Era daqueles que atendiam os pobres de graça e aceitavam galinhas e leitões como pagamento.
Especializado como perito criminalista, foi o criador da Polícia Técnica e da Escola de Polícia no Rio Grande do Sul. Introduziu a prática de concursos para o ingresso na carreira policial nos anos 60. Antes, era apenas por indicação política.
ja-080902-2.jpg Jaime é um de seus nove filhos e, como todos, nasceu e se criou na rua Felipe Camarão, no Bom Fim. Conheceu o parque da Redenção quando ele ainda era um reduto de ex-escravos. Era uma área baldia, onde se instalavam circos e se disputavam provas de atletismo e até corridas de cães, grande atração dos anos 1930. Grande parte do terreno era um banhado.
Para comemorar o centenário da Revolução Farroupilha, em 1935, o campo da Redenção foi transformado em Parque pelo governador Flores da Cunha. "Tiveram que colocar uma camada de três metros de areião para secar o banhado" diz Jaime.
Ele e seus irmãos mais velhos (era o quarto) estudaram no Instituto Porto Alegre, o IPA, na época uma escola afastada do centro. "Não tinha calçamento, para subir aquele morro em dia de chuva era difícil, era muito barro".
Em 1941,ele entrou no pré-tecnico do colégio Julio de Castilhos. Dois anos depois, fez o vestibular e começou o curso de Agronomia. Tinha que conciliar as aulas com o trabalho no Instituto de Identificação, onde o pai o tinha colocado, como "datiloscopista aspirante", sem remuneração.
"Comecei a apreender tomando as impressões digitais do pessoal que ia tirar carteira de identidade". Depois, quando adquiriu experiência, levava uma pastinha para fazer tomada de impressões digitais no necrotério da Santa Casa, no Hospital São Pedro e na Casa de Correção. "Assistia um pedaço das aulas e saia com a pastinha. Um gringo que tinha lá gritava: Oh, Lubianca, hoje está cheio o refrigerador. Eram os cadáveres que estavam lá sem identificação".
Formado na Agronomia demitiu-se da polícia e entrou como técnico do Departamento de Defesa Sanitária Vegetal, "Era doutor das plantas, me tornei chefe. Me deram um jipe que era sobra da guerra, tinha quinze municípios para atender, de Porto Alegre ate Piratini".

Veraneios na Praia da Alegria

A esta altura, o veraneio não era mais em Belém Velho, mas na praia da Alegria, em Guaíba, na outra margem do rio.
"Eu tinha um barquinho a vela e na sexta-feira, ia com o pessoal todo para lá. Pendurava as velas nas laterais do trapiche, e dormíamos ali embaixo". A barraca improvisada ganhou o apelido de Trapiche Hotel. "Era uma festa, carnavais inesquecíveis".
Uma noite beberam chope ate o amanhecer. Um amigo, Homero Marques, havia construído um barraco com caixotes e foram todos se abrigar lá. Mas o barraco era muito quente e Lubianca não conseguia dormir. Ele abriu a janela para refrescar o quarto.
"Foi incrível! Me veio a melodia inteirinha, encaixada na letra. Gritei: Negrão (era o apelido do meu amigo) achei a melodia da minha letra!".
Dali em diante, a canção se tornou obrigatória nas noitadas de boemia.
"Até o Lupicínio Rodrigues que era a grande estrela da noite porto-alegrense me convidou para inaugurar uma foto num bar que ele tinha". Jaime Lubianca garante que foi a única vez que Lupicínio fez um discurso na vida.
Mas a carreira de compositor e boêmio não foi adiante. "Casei e tive filhos. Fiquei sem tempo. Numa época cheguei a ter cinco empregos". Restaram, além de Porto dos Casais - a mais famosa - uma dez canções românticas, como se exigia naqueles tempos.
Entre elas uma canção de Natal, que seus cinco netos aprenderam e cantam nas festas familiares. "Blim, blom, blim, blom...é natal, noite de esperança..."


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