Parque Farroupilha (Redenção)

Tem e não sabe que tem

Crônica de Paulo Santana publicada na Zero Hora de 06 de março de 2006, Página 35.

O racismo é um impulso cultural. Ele nasce no meio em que seu cultivador vive, tem origem na infância e na família. E há de ser carregado por toda a vida por quem o assimilou.
Na grande maioria das vezes, o racismo é silencioso - omite-se por sociabilidade ou por autovergonha, mas permanece para sempre encravado na mente e no coração de seu portador.
Volta e meia, num repente, numa distração ou num rompante, o racista manifesta a sua tara xenófoba, resultado de um defeito ancestral e atávico no eixo da sua personalidade.
Outro detalhe importante: 90% dos racistas, talvez até eu, portanto, não sabem que o são.

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Ontem, transcorria o segundo tempo do jogo Juventude x Grêmio e o jogador Jeovânio foi parado num lance por uma bofetada, quase um soco do zagueiro Antônio Carlos, do Juventude, ex-Seleção Brasileira.
Antônio Carlos foi expulso. Repórteres e comentaristas identificaram num gesto de Antônio Carlos, quando se retirava de campo, esfregando os dedos de uma mão no outro braço, uma atitude racista, ao apontar claramente para a pele, intuindo os assistentes que se referia à cor negra de Jeovânio.
Eu não percebi assim com segurança a ilação. Mas, quando fui ver depois dezenas de vezes na televisão a saída de campo de Antônio Carlos, notei claramente que ele pronunciou a palavra macaco.
Não sou perito em leitura labial, mas acontece que Antônio Carlos soletrou no grito a ofensa: "MA-CA-CO".
Foi claro demais.
Agora, só agora se sabe que Antônio Carlos deu um soco no que para ele era um macaco.

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Recebo do vereador Ibsen Pinheiro (PMDB): "Amigo Sant'Ana: neste mês de março, nossa Câmara Municipal vai votar, com a concordância de todos os partidos, projeto de lei de minha autoria que convoca plebiscito para autorizar o cercamento dos parques em Porto Alegre, trabalhando com a idéia de acoplá-lo às eleições gerais de outubro, sem custos e com proveito para o próprio processo eleitoral, tornado assim mais próximo dos temas do cotidiano dos cidadãos, para o que confiamos contar com o apoio do Tribunal Regional Eleitoral.
O entendimento entre os vereadores é tão-somente de procedimento, pois, no mérito, permanecem conhecidas discrepâncias, mas concordamos todos em que é hora de enfrentar o velho problema, para decidi-lo no voto.
Por que o plebiscito, na minha idéia? Ao menos por duas razões:
a) é uma exigência de lei complementar em vigor, que só pode ser revogada por meio de uma difícil maioria absoluta; e
b) acima de já vetustas divergências, deve haver um árbitro, e esse só pode ser o povo eleitor de nossa cidade.
É também uma proposta flexível, limitada às áreas com cinco ou mais hectares (50 mil metros quadrados), para evitar a proliferação de cercadinhos, e ainda assim sujeita ao debate e ao emendamento, para mais ou para menos - e sempre mediante a prévia aprovação dos órgãos ambientais e urbanísticos da prefeitura.
Convertido há muito tempo, Sant'Ana, pela tua apostólica pregação, vi fortalecerem-se os teus argumentos ante a degradação crescente dos nossos parques e jardins, decretando a obsolescência de ingênuos argumentos supostamente libertários, que ignoram a penosa convivência de bandidos, vândalos e vadios imposta aos cada vez mais raros freqüentadores desses ambientes. E para quem aprecia argumento de autoridade, não encontro melhor do que a profundidade sociológica do jurista Ruy Barbosa, que ensinou: onde convivem desiguais, a liberdade escraviza, a lei é que liberta. Saudações" (estava assinada).
psantana.colunistas@zerohora.com.br


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