A buganvília

Crônica publicada na Zero Hora de 02 de dezembro de 2005, Página 3, Crônica de David Coimbra.

David Coimbra
Saiu a foto de uma buganvília no jornal, esses dias. Que ninguém confunda: buganvília não é um lugar. Ninguém vai sair por aí dizendo: "Vim da pequena e distante Buganvília..." Não. Não existem buganvilienses. Buganvília é uma árvore, conhecida popularmente como sempre-lustrosa. Fui ao gabinete envidraçado da Rosane de Oliveira, minha consultora para assuntos botânicos. Ela me contou, dedo em riste, que a buganvília é da família das nictagiáceas, que, suponho, deve ser uma excelente família, a julgar pela beleza da planta. E que a buganvília é uma trepadeira, precisa ser podada para virar uma árvore como a da foto.
Aliás, a foto. Na capa do jornal, bem aberta. Uma buganvília copada, frondosa, toda colorida de lilás e verde. Os leitores viram aquela buganvília e se emocionaram. Ligaram para o jornal, escreveram imeils e cartas. Todos elogiando candentemente a buganvília.
Fiquei pensando a respeito dessa reação dos leitores. De início, deduzi que se tratava de um sinal alvissareiro. As pessoas estão acostumadas ao espetaculoso, aviões colidindo contra as Torres Gêmeas, Harry Potter transformando tias em vacas, toda essa coisa. Nada mais as surpreende, nenhuma violência é demasiada, nenhuma façanha é inédita. Então, as pessoas estariam indo na direção contrária - redescobrindo o simples, enxergando a beleza e apreciando o sabor do prosaico da vida. A delícia da combinação de café com leite e pão com manteiga, a delicadeza da curva das panturrilhas da mulher amada, uma buganvília.
Mas, em seguida, lembrei que a buganvília sempre esteve no lugar dela, na Redenção, plantada. As pessoas, muitas delas provavelmente leitoras da Zero Hora, elas passam e passavam pela buganvília todos os dias. Mas só foram se comover quando viram a foto dela no jornal. Antes disso, nunca tinha ouvido alguém dizer:
- Tem uma buganvília muito bonita lá na Redenção.
Que nada. A buganvília era anônima, as pessoas eram indiferentes a ela. E tem mais: Porto Alegre está cheia de buganvílias de todos os tamanhos e várias cores. Esta é uma cidade de buganvílias, tem buganvília até enterrada em vaso. Mas só uma, só a que saiu no jornal, mereceu a atenção e o louvor do porto-alegrense. Quer dizer: é exatamente o oposto do que eu pensava. As pessoas não apenas continuam admirando o que é veloz e espetacular, como esperam que a imprensa aponte o veloz e o espetacular para elas. Enquanto isso, lá fora, sob o sol, a vida continua.




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