"Siga aquele touro!" - Paulo Santana

Crônica publicada na Zero Hora de 27 de junho de 2005, Página 43.

Está na capa e na edição de hoje de ZH, mas quase não dá para acreditar, ontem à tarde um homem desceu de um táxi na Rua José do Patrocínio, Cidade Baixa, fez várias voltas no seu laço e laçou um touro, ante a estupefação de todas as pessoas que estavam ali e dos cerca de 50 perseguidores, entre eles brigadianos e azuizinhos.
O touro, mesmo laçado, fugiu novamente.

* * *

O touro havia escapado de um leilão que se realizava ontem no cais do porto.
Eu comungo da reação do animal: nem um touro resiste à chateação tediosa de um leilão.
Dali do cais do porto, o touro enveredou pela Avenida Mauá. Segundo as testemunhas, só parava onde havia verde.
Parou no Parque da Harmonia, no Gasômetro e em disparada se dirigiu à maior reserva ambiental da cidade, o Parque da Redenção.

* * *

Quando o touro fugiu, seu proprietário tentou persegui-lo de caminhoneta. Como não conhecesse a cidade, estacionou a caminhoneta, pegou do laço e atacou um táxi.
Quando o fazendeiro esbaforido entrou no táxi com um imenso laço na mão, o taxista se imaginou assaltado e amarrado. Lívido, perguntou:
- Para onde é a corrida?
- Ainda não sei, siga aquele touro!

* * *

Quando avistou o touro em disparada lá perto da Rua Avaí, o velho taxista não acreditou no que estava vendo: já tinha feito toda espécie de corridas, já tinha seguido ladrões de rua, assaltantes, maridos flagrados em adultério, mas touro era a primeira vez.
Pela primeira vez em toda a história de Porto Alegre, o serviço de táxi registrou uma corrida de touro.

* * *

O touro estava decidido, queria conhecer a Redenção e foi para lá que se dirigiu, seguido de várias viaturas da PM, dos azuizinhos e de populares, Porto Alegre tinha virado uma Pamplona às avessas, o povo correndo atrás do touro ao som de sirenas.
Depois de avistar a Redenção e penetrá-la (se houvesse cerca em volta do Parque Farroupilha isso não teria acontecido), o touro empreendeu uma corrida entre os canteiros.
Os freqüentadores da Redenção não se assustaram, o touro significava um risco muito pequeno perto dos enormes perigos que eles correm com aqueles pitbulls, rottweilers e filas soltos pelo parque ou presos nas guias de seus donos mal encarados.
Perto dos cães ferozes que enfrentam todos os dias os freqüentadores da Redenção, um touro bravio da raça angus em desabalada corrida é um pivete.

* * *

Cansado e satisfeito por ter conhecido a Redenção, o touro cedeu na carreira espetacular pela cidade e deixou-se laçar e derrubar.
Um azulzinho telefonou para o serviço de guinchos e pediu:
- Mande um guincho aqui no Monumento do Expedicionário para transportar um touro vivo.
O motorista do guincho respondeu com um palavrão, desligou o telefone e falou para seu ajudante:
- Está insuportável o serviço hoje. Já é o quinto trote neste domingo.
psantana.colunistas@zerohora.com.br



Voltar p/O parque na Imprensa Voltar p/Página Inicial Fechar Janela