Recantos da Bocha - Parque da Redenção
Espaço da bocha reúne mais de 300 pessoas em praça pública
0 Parque Farroupilha (Redenção), em Porto Alegre abriga um dos espaços de bocha mais freqüentados da cidade: A Sociedade Esportiva Recanto da Alegria (Soeral). Fundada em 1976, começou com os moradores do entorno, que construíram duas canchas de bocha. Aos poucos, foram agregadas outras modalidades esportivas, como canastra, trissete, dominó, dama e xadrez. Para superar os problemas do clima, foram construídas duas canchas cobertas, além das duas que já existiam, dois galpões, banheiro, piso no pátio e uma sala para a administração. Com as canchas sintéticas, as de argila foram abandonadas.
Há uns 20 anos, o local era freqüentado por umas 60 pessoas. Atualmente, possui mais de 300 sócios e diariamente circulam por lá cerca de 140 pessoas, entre às 8h e 19h, todos os dias. Para fazer ficha de sócio e necessário ter, no mínimo, 40 anos.
A Prefeitura cedeu o local mas não participa com o custeio das despesas. Tudo que existe ali foi construído com os recursos dos sócios, que pagam uma contribuição mensal, que não é obrigatória, de R$ 5,00. Embora as despesas não sejam poucas.
Recentemente, uma das canchas e toda a instalação elétrica foram reformadas. Até o final do ano, o plano do atual presidente, Édio Cordolini (60), é construir uma cerca nova, pintar os galpões, reformar os banheiros, comprar mais cadeiras e mesas, trocar os plásticos das canchas e fazer cortinas, além de colocar um trailer de lanches, para atender o público. "Isto aqui e um cartão postal da cidade e vai ficar novo", acrescentou Édio.
Soeral é um espaço terapêutico
A Soeral funciona como uma terapia para os seus freqüentadores. E um espaço onde a maioria dos aposentados, além de fazerem amigos, também ocupam o tempo. A sua localização é privilegiada pois está numa região central. "Aqui e a nossa vida. Ninguém tem o que nós temos. Um espaço ao ar livre perto do Hospital de Pronto Socorro, das Clínicas e do Instituto de Cardiologia. Eles nos dão toda e qualquer assistência", explicou o presidente.
A Soeral é também uma referencia para realizar trabalhos acadêmicos sobre idoso. Eles são procurados para serem objetos de pesquisa e levantamentos, realização de palestras, seguro de vida e reportagens, entre outras visitas, como os amigos do alheio.
Uma história de muitos anos
A historia da Soeral começou a ser escrita, agora, pelo professor Luiz Alberto Mendez (48), secretário do Conselho Deliberativo é um dos mais jovens freqüentadores. Segundo ele, a faixa etária de mais de 50% dos sócios está entre 65 e 72 anos. "Sempre tem aviso de falecimento no quadro", observou.
Luiz relatou que agora a Sociedade começa a se abrir para os mais novos. Eles vêm de todas as partes da cidade e também da grande Porto Alegre, como Gravataí, Viamão e Cachoeirinha.
Luiz Trentin (79) freqüenta o espaço desde 1989. "Eu tinha me aposentado e andava em casa meio nervoso, com dor de cabeça. trabalhei a vida inteira e de repente fiquei sem saber o que fazer. E aí me convidaram para vir aqui. Nunca mais tive dor de cabeça", relatou. Durante dois anos, foi somente associado, mas não se conformou e começou a participar. Se envolveu como presidente por quatro vezes. "Agora pertenço aos móveis e utensílios", brincou. Ele disse que tudo foi construído com o esforço e colaboração dos associados, junto com a Prefeitura, que doou a mão-de-obra, e eles compraram o material. "Até o pessoal duvidava, que podíamos construir isto aqui.
Conseguimos com determinação, coragem e a colaboração de todos", avaliou. 0 número de participantes triplicou com os outros jogos. "Sempre com o intuito de diversão, não se joga nem por um cafezinho, só lazer", explicou Trentin. Ele nunca tinha jogado bocha, foi aprender ali e hoje é o participante mais idoso do Campeonato Municipal de Praças. "Isto aqui se tornou uma obsessão para mim. 0 dia que não venho fico nervoso", confessou Trentin.
0 presidente do Conselho Deliberativo, Eduardo José Osório (69), depois que viuvou, não tinha mais vontade de voltar para casa.
Ele freqüenta a praça desde 1978. Quando chegou, só havia duas canchas de argila. "Venho para cá e me apaixono, fico o dia inteiro, converso, jogo", revelou. Para ele, a grande dificuldade é encontrar os abnegados, para a espinhosa missão de ser presidente e gerir todo o funcionamento. "Para criticar tem um monte", relatou.
0 atual presidente foi eleito por unanimidade pelo Conselho Deliberativo, com 15 votos e uma abstenção. Freqüentador há quatro anos, seu Édio procurava um espaço como aquele. Já tinha ido a praça da Alfândega, mas não gostou. Foi chegando, começou a jogar dominó, até ser convidado para ser sócio. 0 mesmo que aconteceu com Carlos Rampinini (67), que se associou naquele momento. "Quando conheci isto aqui jogava basquete ali no parque e o pessoal dizia que aqui era o jogo dos velhos. Agora parece que esta muito democrático", observou. Seu Édio diz que o trabalho é intenso, mas antes ele tinha problemas no coração e nos nervos. Depois que entrou na Soeral, se curou. "Este é o meu segundo lar, eu passo mais tempo aqui do que em casa", revelou.
José Galdino da Silva (79) já foi da Federação Riograndense de Bocha e jogou em vários clubes da cidade, até 1983. Hoje, ele divide com os irmãos Darci (70) e Adão Alves da Silva (67), a venda de cafezinho. Uma semana para cada um. "Conheço Deus e todo mundo pelo nome", relatou. Ele está na Soeral há 14 anos.
Darci está há 10 anos no local e Adão há uns três anos. Darci diz que também corta o cabelo. Apesar de todo o dia montar a estrutura, do cafezinho eles não reclamam. "Isto é uma terapia. A gente se diverte. Não dá para ficar parado, sempre tem que atender bem, com um sorriso no rosto," concluiu Darci.