Parque Farroupilha - Redenção

O parque na Imprensa


O candombe da mãe Rita
POR ANTÔNIO ÁLVARES PEREIRA, O CORUJA/ (1881)

Matéria e fotos publicadas na Zero Hora, de 26 de março de 2005, Caderno Cultura, Página 4

camdombe-1

"Ali se reuniam nos domingos à tarde pretos de diversas nações, que com seus tambores, canzás, urucungos e marimbas cantavam e dançavam esquecendo as mágoas da escravidão, sem que causassem maiores cuidados à polícia"
O Candombe1 da mãe Rita era na Várzea2, defronte da casa e curral do antigo matadouro3, mais ou menos no terreno então baldio e depois ocupado pelas casas do Firmo e olaria do Juca (José de Sousa Costa), ou Juca da Olaria4, nomes quase iguais à Baiana do Presépio ou Presépio da Baiana5.
Ali se reuniam nos domingos à tarde pretos de diversas nações, que com seus tambores, canzás, urucungos e marimbas cantavam e dançavam esquecendo as mágoas da escravidão, sem que causassem maiores cuidados à polícia, como e à mesma hora acontecia aos parelheiros da Várzea em frente à chácara do velho Leão6, com os tantos patacões aos pés do bico blanco, do zaino do mano Juca, etc., apostas que quase sempre acabavam em rolo.
camdombe-2 Nesse candombe também se ensaiavam os cocumbis7 que pelo Natal nas festas da Senhora do Rosário, levando à frente o Rei e a Rainha vestidos a caráter, com a juíza do ramalhete e a competente aristocracia negra, iam dançar ou antes sapatear no corpo da igreja8 com guizos nos tornozelos, enquanto dali os não expulsou o falecido vigário José Inácio, de saudosa memória.
Esta expulsão ou proibição deu causa a que o tesoureiro da irmandade, Francisco José Furtado, promovesse a ereção da atual Igreja do Rosário9, mas quando anos depois não se concluía, já não dançavam aí mais os pretinhos; porque os tempos já eram outros, e só em Viamão se viu um arremedo de cocumbis, em que o rei e a rainha se caracterizavam com as colchas das sinhás-moças.
Não sei se o vigário tinha razão nesta expulsão ou proibição, pois como era octogenário devia saber que em julho de 1756, quando pela capitania andou o conde de Bobadela, foi no povo de Santo Ângelo obsequiado ele e a oficialidade que o acompanhava, pelo padre Bartolomeu Piza, superior daquela missão, com um sermão dentro da Igreja, à entrada da porta principal, e que as índias e índios dançaram minuetes e contradanças nobilíssimas em honra de Santo Inácio de Loyola, patriarca da Companhia de Jesus de quem reza a igreja no dia último desse mês.
camdombe-3 E o vigário José Inácio não devia ser mais católico nem mais cristão do que os próprios jesuítas.
Notas
1. Candombe equivale à designação atual batuque, observa Sérgio da Costa Franco. É de ver que a palavra candombe sobreviveu no Uruguai, onde designa um gênero musical afro-americano.
2. Grande área alagadiça que compreendia o atual parque Farroupilha e era maior que ele.
3. Parece ser aquele que funcionou até 1824 na altura da atual Rua Avaí, perto da João Pessoa.
4. Não era este o mais antigo proprietário de uma olaria na região, onde hoje corre a Rua Lima e Silva.
5. Trata-se de Ana Maria de São José, senhora que vivia no antigo caminho da Azenha, atual João Pessoa, que de fato abria à visitação um presépio, por ocasião do Natal, segundo Coruja. Era uma "mulata velha" que sobreviveu como parteira depois de ter sido preterida numa herança rica a que tinha direito.
6. Atrás do atual Colégio Militar.
7. Na região de Osório se manteve esta tradição, a das congadas ou maçambiques e dos cacumbis (com "a", hoje em dia). Mais adiante o texto diz que os cocumbis permaneciam só em Viamão, que era o município a que pertencia a região litorânea toda.
8. Esta igreja era a antiga Matriz, que existia até a década de 1920 no mesmo local da atual.
9. Atual na época da redação, claro: Coruja está falando da antiga Igreja do Rosário construída pela irmandade dos pretos (livres ou escravos), construída na atual Rua (ironia da história?) Vigário José Inácio entre 1817 e 27 e destruída irracionalmente nos anos 1950, para dar lugar à atual.
Sobre o autor
Trecho das Antigualhas, reminiscências escritas nos anos 1880 mas referidas aos anos iniciais do século 19, esta passagem é altamente expressiva tanto da vida de Porto Alegre, quando do ponto de vista de seu autor, o popular educador Coruja, que nasceu Antônio Álvares Pereira e agregou a seu nome o apelido que recebeu na infância, o da ave noturna - segundo ele mesmo, ganhou a designação porque foi para a aula com uma roupa de cor indefinida, que um colega definiu como sendo "de coruja", e a coisa toda foi reforçada pela aparência do manequim. Menino pobre, nascido na capital gaúcha em 1806, foi um dos primeiros professores da redondeza. A eclosão da guerra dos Farrapos levou-o à cadeia, de onde saiu, em 1837, para o Rio de Janeiro, onde viveu uma belíssima trajetória de educador e autor de livros didáticos. Seus últimos tempos foram horríveis, porque entrou numa gelada com um sócio, que o deixou sem dinheiro algum. Viúvo, e com seu único filho morto, passa os derradeiros meses de vida quase na miséria. Morre em 1889. Pelo que lemos no texto, Coruja tem grande sabor em rememorar as coisas de sua cidade natal. Não deixa de lado especialmente as coisas da vida diária, os nomes da ruas, as figuras notáveis de seu tempo, a cultura popular - aqui, ele não apenas recorda o tal candombe como ironiza o vigário José Inácio, que não era mais católico que os rígidos jesuítas mas foi mais ortodoxo que eles: ele expulsou a dança negra, enquanto eles, argumenta Coruja, acolheram a dança índia. Isso, depois de dizer que as práticas do negros eram menos perigosas para a polícia do que as carreiras de cavalos.



Voltar p/O parque na Imprensa Voltar p/Página Inicial Fechar Janela