Espírito de Natal
Foi no Parque da Redenção que encontrei o Gabriel. Perto do laguinho. Tem 11 anos. Diz que tem pai e mãe vivos. Mas anda solto pela cidade. Eu vinha caminhando rápido, ensimesmado com as últimas páginas de um romance policial de Fred Vargas que não consigo largar, mas o moleque me alcançou e, com um sorriso meio enviesado na cara melada, me pediu um trocado. Falei que não tinha. Debochou: 'Pô, tio, nem no Natal!'. Senti vergonha. Respondi no mesmo tom: 'Tenho cara de Papai Noel?'. O guri me olho meio de lado: 'Ih, tio, não precisa apelar'. Dois a zero para ele. Difícil empatar.
Diminuí o passo. Perguntei o nome dele. Quis saber se ia à escola. Indaguei o seu time. Gremista. Saco! Gabriel respondia com um ar zombeteiro, como quem diz, 'estou te sacando, cara, estou te sacando, nem vem'. Aí eu me fiz de bobo mesmo: 'Acredita em Papai Noel, meu?'. Paramos. Correu um segundo com jeito de milênio. O menino ficou sério, meditativo. Eu vi um mundo estampado em seus olhinhos claros. Mas não consegui decifrar coisa alguma. Turvo. Então ele disse, com uma voz subitamente límpida: 'Claro que acredito. Tu não?'. Fiquei contra a parede, perfeitamente encurralado. Que poderia eu responder? Devia mentir? Mentir o quê?
Gabriel ficou me estudando. Se eu dissesse sim, acredito, tenho certeza de que ele ia rir na minha cara. Se falasse, como um adulto, não, não acredito, ia me sentir um pulha, destruindo a fantasia de uma pobre criança. Se eu dissesse sim, acredito, somente para não desencantá-lo, talvez ouvisse um risinho do tipo, 'não me enrola, tio'. Fiquei numa sinuca de bico. Será que o safadinho estava me testando ou tudo era imaginação minha, um sentimento de culpa por culpas que não tenho ou tenho como todo mundo, nada de especial? 'E aí, tio, engoliu a língua?' Que pestinha, pensei, mas fiquei quieto, afinal, era semana de Natal. Resolvi bancar o sabichão e me saí com esta: 'Papai Noel existe, chapinha, e está por toda parte, antes de tudo na infância da gente'.
Gabriel hesitou. Achei que ia me poupar. Finalmente desembuchou: 'Não estou falando de Papai Noel de loja, tio'. Endureci: 'Nem eu. Estou falando do Papai Noel que vive em nossa imaginação'. O garoto riu debochado: 'Como a mula-sem-cabeça?'. Pensei, andando de lado, por que não dei uma moeda para esse diabinho? Mudei a tática: 'E tu, Gabriel, como é o teu Papai Noel?'. Sentamos num banco de madeira. Gabriel foi sucinto: 'Meu Papai Noel não entra pela chaminé nem anda de trenó.' Só isso? Fiquei achando que ele tinha mais bala na agulha e que estava aguardando o melhor momento para atirar. Não teve jeito, fui obrigado a me molhar: 'Por quê, carinha, qual é a dele, do teu Papai Noel?'. Tive a nítida sensação de que me considerou um taipa naquele instante. Ou sempre. Ainda assim me respondeu firme: 'Não tem chaminé na rua nem trenó em Porto Alegre'. Comecei a achar que o guri era um militante ultraprecoce do PSTU. Pensei em cair fora antes de assinar ficha ou de me ver mergulhado numa crítica retardatária ao furor consumista do Natal.
Foi aí que Gabriel me pegou realmente no contrapé: 'Papai Noel existe, mas não é como a mula-sem-cabeça nem como os homens. É cara bom, que dá presente, mas que não tem presente o ano todo. Então, dá uma vez por ano'. Meti a mão no bolso e procurei uma nota para Gabriel. Por um momento, considerei a possibilidade de levá-lo para casa, de convidá-lo a passar o Natal conosco. Entrei num espiral clássica: vi a hipocrisia do mundo rodar na minha cabeça, com shoppings, compras, futilidade, mercantilismo e tudo mais. Já me achava pronto, ao menos, para entrar no PSOL. Fiquei comovido até com a minha ingenuidade. Um simplório prestes a deixar rolar uma lágrima passageira e inútil. Gabriel esperava. O quê? Dei-lhe dez reais. Gabriel vibrou. Fiquei novamente confuso. Seria isso? Só isso? Já o ouvia dizendo, 'agora, tio, tu já pode passar o Natal tranqüilo'. Gabriel levantou-se e se foi. Não disse nada. Depois de uns dez passos, olhou para trás e falou: 'Agora, tio, tu...'. Gelei. O sacana ia me levar os dez pilas e ainda me chutar a canela. Não havia como escapar. Nem tapar os ouvidos me ajudaria. Ele gritou: 'Agora, tio, tu já sabe que Papai Noel existe'. Eu sorri. Ele riu. Fui. Aí me veio uma dúvida: seria uma ironia?
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