O caminho da perfeição
Andreza Cunha
Os pés descalços revelam a humildade, a firmeza com que segura a espada, a determinação.
A voz confiante orienta os discípulos, fazendo do recanto budista do parque da Redenção, em Porto Alegre, um pedacinho do Japão de mais de 200 anos atrás. Diante do semblante tranqüilo e às vezes severo do sensei Jorge Kishikawa, 41 anos, seis jovens – profissionais de diversas áreas – gritam “Hai” para mostrar atenção.
Óculos Ray-ban, relógio esportivo e celular: estamos diante de um samurai moderno, que ensina a aplicar a filosofia guerreira na vida pessoal e no trabalho. Seu livro Shinhagakure, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, é uma adaptação do Bushido – o código de honra dos samurais – ao modo de vida ocidental.
O sensei (aquele que nasceu antes) conversa com Zero Hora sobre como um profissional pode aguçar seu espírito samurai. Encarando os desafios do dia-a-dia como se estivéssemos em uma batalha, começa, esse é o caminho da perfeição. Dez minutos de entrevista, já avisa a quem pode achar que, na teoria, tudo é facial:
-Para vencer, é preciso ser guerreiro 24 horas.
Filho de japoneses, o paulista Kishikawa convive com a cultura samurai desde pequeno e hoje aplica seus esforços para preserva-la. Ainda criança, já fazia o treinamento com a espada. Formado em Medicina valeu-se do espírito guerreiro para passar no vestibular e fundar o Instituto Niten há 12 anos. Com 800 alunos em todo o país, a escola tem 30 unidades, das quais duas em Porto Alegre e uma em Caxias do Sul. A expansão para Santa Maria e Gramado, em breve, exemplifica a vitória do modo de gestão samurai.
andreza.cunha@zerohora.com.br
A guerra de Alexandro
Para você conquistar o quer, tem de praticar. Com esse mantra, o administrador de empresas Alessandro Barbosa, 29 anos, treina a arte de espada no Instituto Niten. A meta é passar no concurso público para auditor fiscal da Receita Federal e trabalhar na área de comércio exterior. O caminho passa por muita dedicação e até sacrifício.
-A guerra começa agora, mas os resultados só vêm depois – diz o discípulo, que começou a praticar há três anos.
Quem são
Os samurais foram guerreiros que dominaram o Japão do século 11 até 1876, quando o imperador Meiji começou a modernizar o país. Eram homens com grande habilidade na espada e um rígido código de ética – o Bushido.
Entre no combate
Veja alguns ensinamentos do sensei Jorge Kishikawa:
Espírito guerreiro
Todos nascemos com potencial guerreiro. É Preciso colocar em movimento nossa energia interna.
Dedicação
É preciso ter dedicação total no que se está fazendo. Não descanse. Primeiro, cumpra seu objetivo.
Estratégia
Antes de entrar numa guerra, é preciso avaliar se vale a pena.
Disciplina
Se o expediente é às 9h, deve-se chegar às 8h45min ou antes. Aquele que chega na hora ou atrasado não tem a atenção voltada para a guerra.
Perfeição
Para fazer um trabalho perfeito, é preciso colocar honra, coração e lealdade. O que você faz leva o seu nome e o de sua empresa.
Humildade
O samurai assume seus erros e responsabiliza-se pelas conseqüências.
Lealdade
Ao contrário do profissional que pensa apenas em si, para o samurai, a empresa é o mais importante.
Autocontrole
É Preciso colocar a razão sobre a emoção e nos manter em equilíbrio.
Conquista
Mesmo depois de o objetivo ser alcançado, é preciso manter o espírito de combate.
Disposição
Postura ereta, voz firme e olhar atento são essências para a guerra. Aja com energia.
Persistência
Antes de desistir, lembre-se dos motivos que o levaram ao combate. A vitória pode levar dias ou anos.