Mercado Bom Fim busca seu espaço
A revitalização do Mercado é fundamental para o sucesso dos projetos voltados às melhorias do bairro
Movimentos em diferentes esferas da sociedade estão envolvidos na recuperação da imagem do Bom Fim frente á população da Capital. Um dos pontos centrais desse processo é a revitalização do Mercado Bom Fim, localizado no encontro das avenidas Osvaldo Aranha e José Bonifácio. Marcado pelo tráfico e consumo de drogas, os permissionários do local, reformado a quatro anos pelo Município, querem mostrar que as coisas estão mudando. Eles garantem que a violência está em queda vertiginosa, e o que falta é a população reocupar o espaço.
Mercado Bom Fim qualifica público
Permissionários investem para trazer consumidores afastados pelos antigos problemas
Nem todos sabem aonde está localizado o Mercado Bom Fim, muitos talvez, nem saibam que ele existe. Mas é só falar do ponto de drogas na Osvaldo Aranha que todos pensam no mesmo lugar.
Mudar essa visão da população é ponto de partida para a nova vida do Mercado, que vem sendo alvo da atenção do Município, de instituições e associações de moradores e da comunidade em geral.
A feira que vem sendo realizada em frente às bancas da Osvaldo Aranha, autorizada pela Secretaria Municipal da Indústria e Comércio (Smic), foi responsável pela diminuição da concentração de grupos no local. “A feira qualificou o espaço, trouxe um público saudável”, afirma Cláudio Rudnicki, proprietário do Armazém da Cidade. Para a decepção geral dos permissionários, a Smic informou que a feira só será realizada até o domingo, 30 de maio. A alegação é de que a localização das barracas se torna irregular devido à realização do Brique, também aos domingos, na José Bonifácio. A colocação de mesas e maquinários na calçada também foi suspensa, mas entidades estão se organizando para reativar esta prática, baseadas nas condições adotadas no Mercado Público de Porto Alegre.
A Associação dos Amigos do Bairro Bom Fim, que inaugurou sua sede na banca 13 do Mercado, fez parte importante na reconstrução do espaço. Foi, por exemplo, vital na reativação do Posto Policial Bom Fim, que deu mais segurança a todos, freqüentadores e comerciantes. “O posto impôs respeito”, comenta Diva Viola, proprietária da Tabacaria Joaninha. Outra forma encontrada pela ABF e aplaudida pelos vizinhos foi a apresentação da Orquestra de Flautas formada por alunos da E.M. Heitor Villa Lobos. “Eventos como este deveriam acontecer mais vezes”, enfatiza Mara Lopes de Faria, à frente da Lancheria Faria.
Os fundo do Mercado, onde estão localizados os restaurantes, é de onde vêm as maiores reclamações. O corredor entre as lojas e o parque de diversões Zaapt Zun foi ocupado por traficantes que agiam livremente. Para Paulo Sangineto, da Bichos e Companhia, a falta de divulgação do Mercado ajuda na má imagem, “existe propaganda do Mercado Público de Centro, por que não anunciar este espaço também”, reclama. Buscando novos clientes, os restaurantes Luar Luar e Por do Sol, investiram no almoço, e estão fechando cedo as portas para evitar aglomerações. “Estou no caminho certo”, comemora Antenor Guerra, que serve almoço A La Minuta. “Os moradores e o pessoal que trabalha no bairro estão voltando”, analisa. Entre vizinhos de porta, a concorrência é amigável. “Às vezes o freguês quer variar e troca de restaurante”, explica Paulo Santos, dono do Por do Sol, que oferece comida tradicional gaúcha feita em panelas de ferro. “Deviam colocar ambulantes aqui dentro também”, sugere Beto, dono do Bar Viva Vida, sem saber que a feira do Mercado irá ser desativada. “Esse pessoal que vende drogas não gosta deles, eles aos poucos iriam todos, que nem os punks”, analisa.
A lanchonete Zé do Passaporte já é marca registrada do bairro. Atualmente localizada no mercado, começou a vender cachorros quentes há 45 anos. “Meu pai ficava na esquina da Osvaldo Aranha com a Felipe Camarão, em frente do Fedor, antigo bar do bairro”, conta Carlos Alberto, hoje à frente dos negócios do pai. “O fedor só vendia bebida, então meu pai resolveu abrir um negócio que trabalhasse com comida”, explica, lembrando que nessa época, por um acordo feito com o tradicional bar, o Zé do Passaporte vendia apenas comida. Para Carlos, os bares tem uma dose de culpa por cederem aos excessos dos freqüentadores.
Já Sangineto, que antes de comandar a pet shop, já trabalhava no Mercado Bom Fim, tem outra visão; “o dono do bar não tem poder de polícia”, ressalta, “dentro do bar ele pode pedir pro cara parar, mas fora, é outra história”, completa. Maria Helena da Silva Santos chegou ao Mercado depois da reforma, a cerca de quatro anos, mas já amargurou tarefas ingratas trabalhando na Companhia da Photo, de frente para a Osvaldo Aranha. “Toda segunda pela manhã era um horror limpar a calçada”, lamenta. De uns tempos pra cá, as coisas melhoraram, “agora a única coisa, é uma senhora, moradora da rua mancha as paredes”, festeja.
O movimento pela revitalização do Mercado Bom Fim não é um ato isolado. Em outros setores, como o comércio de imóveis, estão se mobilizando para dar uma nova vida ao bairro. A Via Móveis foi criada com a intenção de afirmar os negócios e aquecer o consumo. A derrubada do antigo cine Baltimore lança luz à possibilidade de um centro comercial no coração da Osvaldo Aranha, em outro ponto crítico no combate ao tráfico de drogas. Estes grupos assim como os moradores, de forma isolada ou através de entidades pode colaborar. Segundo Clóvis Breda, Administrador do Parque Farroupilha, reuniões e debates são importantes, mas “o poder público deve ser enérgico, e bater o martelo logo”, nos assuntos relacionados ao Mercado Bom Fim.
As flores do Mercado
As floristas do Mercado Bom Fim são uma atração à parte. Tradicionalíssimas entre os consumidores, estão entre as mais antigas permissionárias do espaço. Maria Couto está a 36 anos no Mercado, dividia o espaço com uma prima, e trabalhava basicamente com cerâmica e terra, quando passou a tomar conta da loja sozinha as flores passaram a ser um produto mais
comercializado na Floricultura Maria, na loja 15. Nelcy Azevedo, da Floricultura Nova Esperança, loja 20, diz que o marido foi pioneiro no mercado de flores. “Quando o Mercado Bom Fim passou a perder espaço para os supermercados e açougues, meu marido, Manuel Azevedo, teve a idéia de
mudar de ramo e trabalhar com plantas”, conta a florista, que garante o sucesso no seu comércio através do carinho tanto com as plantas como com os clientes. Quem também não economiza no amor às flores é Leni Rolim Santos, que desde os 18 trabalha no mercado. “Comecei como funcionária, e trabalhei por 22 anos, até 1982, quando meu patrão se aposentou e eu adquiri o negócio”, conta a proprietária da Flora do Sul, na loja 19. Leni lembra da época em que atendia a família Sirotsky. “Eu ia pessoalmente ao escritório no centro, colocar os arranjos”, diz, “eles eram ótimos clientes”, acrescenta. Iva Couto, da Miosótis, loja 16, está no Mercado desde 1967, quando a sua banca era de frente para a Osvaldo Aranha. “Naquele tempo tudo era mais calmo, existia mais segurança, não só no Mercado, mas em todo bairro”, lamenta. O segredo de Iva para o cultivo de belas plantas é o adubo. O lado florido do Mercado Bom Fim está sempre alegre e bonito aos olhos, a qualquer hora que se passar por ali vais haver algum cliente satisfeito com uma bela flora, árvore ou apenas um vaso para levar para casa. São as flores do Mercado alegrando a vida cinza da cidade grande.
As floristas dão cor ao Mercado Bom Fim, um comércio tradicional que tem um público fiel e constante.