Sobre domingos, arte, chimarrão e liberdade Com 23 de antigüidades e 19 de artesanato, o Brique da Redenção não deixa dúvias sobre sua, já tradicional, presença marcante na vida do porto-alegrense.

Entre os que batem cartão-ponto todo o domingo e os que eventualmente resolvem respirar novos ares de cultura e liberdade de expressão,
coexiste uma certeza: o brique é indispensável para a boa convivência entre o novo, o contemporâneo e o antigo.
É nesta festa (o brique nada mais é do que exatamente isto) que desfilam pacificamente senhoras, exibindo sua dignidade:
artistas tresloucados; políticos em campanha; mendigos sedentos de movimento; jovens orgulhosos de seus corpos;
crianças com ou sem pais e cães afoitos de curiosidade.
Ao que consta, devemos tudo isso a cinco artesãos que, em 24 de abril de 1982, resolveram se juntar para, antes colher impressões sobre suas
inspiradas produções artísticas, do que propriamente comercializá-las.
A primeira investida foi dentro do Parque Farroupilha, ou simplesmente a Redenção.
Mas, em razão da proibição por parte da Secretaria Municipal de Obras e Viação SMOV, os cinco artistas passaram,
em dezembro do mesmo ano, a utilizar legalmente os largos canteiros da avenida José Bonifácio para seus intentos.
Os canteiros, que já eram utilizados pelos comerciantes de antigüidades do chamado Mercado das Pulgas, desde 1978,
foram ficando pequenos para um número crescente de adeptos da idéia inicial.
Por esta razão, logo se estabeleceu uma comissão com o intuito de organizar e defender os interesses dos expositores.
Hoje, são 400 expositores divididos em quatro segmentos distintos: artesanato, artes plásticas, antiquário e gastronomia.
Para conseguir um disputado box nessa área é preciso passar por uma complexa triagem.
Cada um dos quatro segmentos possui uma comissão composta de 11 pessoas às quais cabe triar, conduzir e fiscalizar os demais expositores.
O Brique, enquanto espaço físico, é dividido por canteiros da avenida José Bonifácio.
O setor de antiquários tem, a sua disposição, quatro canteiros; o de artesanato, três; as artes plásticas dispõem de um e a gastronomia,
que chegou mais tarde, concentra-se nos intervalos entre os canteiros.
Todos os expositores assinam um ponto de presença e, conforme Iolanda Borges, responsável pelo segmento de artesanato,
os que faltarem quatro domingos consecutivos, estão automaticamente desligados da feira.
"Isto consta no regimento interno do Brique", explica.
Iolanda, juntamente com os outros quatro artesãos, é uma das fundadoras do Brique da Redenção, e trabalha com artesanato em cerâmica, ocupando o box de número 121.
"O Brique é a minha razão de viver. Tenho 66 anos de idade e trabalhei a vida inteira com arte na rua.
Não consigo ficar enterrada em um ateliê", relata a artista, que está organizando material para a publicação de um livro sobre o Brique da Redenção.
Além de arte, boa comida, artigos de decoração ou raridades de todo o gênero, é possível encontrar no Brique os mais diversos tipos de manifestações,
tanto políticas como artísticas.
Tem teatro de rua, tem dança, tem roda de capoeira, tem música de todo o gênero, e o melhor: tudo ao vivo, em cores e aromas.

Expondo há oito anos no local, o artista plástico Zupo resume o Brique como um espaço de todas as tribos.
"O legal do Brique é que ele não é elitizado. Se eu exponho em uma galeria de arte, o cara de chinelos de dedo
não vai ter acesso ao meu trabalho. Aqui ele passa, olha e leva esse alimento na alma", argumenta.
A arquiteta especializada em interiores, Maria do Carmo Fabricio, percorre a avenida José Bonifácio aos domingos,
tanto em busca de peças de arte para suas criações, como para fazer caminhadas regadas a chimarrão e bate-papos com os amigos.
"Eu gosto de conviver com a cidade, e o brique é um dos espaços mais democráticos que eu conheço.
Viver o Brique é, acima de tudo, uma questão de cidadania", arremata.